segunda-feira, 31 de dezembro de 2007


Natal.
Juras de harmonia,
de paz e alegria.
Passeiam-se vaidades,
enredam-se promessas
de um mundo melhor.
Nas ruas o encanto
esquece o pranto
dos horrores.
No horizonte
de um novo ano
anseiam-se glórias,
brindam-se as vitórias
e os males alheios…
As luzes brilham
numa cor que nos conquista,
e ofusca o discernir,
e na delonga da ocasião
turva-se a realidade
num sonho azul,
de lareiras acesas
e famílias felizes.
Agitam-se as cozinhas,
num frenesi
de sabores quentes
já descontentes
com a tradição.
Envaidecem-se carteiras,
as fartas
e as cheias de coisa nenhuma,
no impulso do fácil
que é agradar.
Porque ter mais
sempre compensa
o que se é cada vez menos,
e o que nunca se foi…
E assim é o Natal,
cheio de uma magia
recriada, deturpada,
infiel, cega e surda
aos gritos da verdade.
Quedam-se
as consciências
e repetem-se
demências
nos discursos
coloridos pela subtileza da forma,
mas incontidos de conteúdo
vil e viciado.
Natal,
uma época especial…
para o Homem revelar
a sua natureza,
cada vez menos humana.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

De quem é
a tua ausência de mim?
De quem é
o sobressalto do teu sonho?
Fazes-me voar
com o consentimento
do que para lá
de mim te imagina,
te desenha,
te deseja.
És destino
sem caminho.
Mas por um momento
Meu.
Meu como não és,
na perfeição
que a saudade
faz existir.

A quem pertence
o teu enigma?
A quem dedicas
o brilho cristalizado
da tua arte?
És poeta, és cantor,
és a luz
que alguém esmoreceu.
Sinto a tua prisão
num perfume
de mulher,
sei a tua ilusão,
conheço a tua dor.

Na alma
como nos versos,
sobrevives
na vontade intermitente
dos encantos,
do deserto frenético
que é existir.
Deambulas
na solidão
por entre corredores
de um mundo
a que não pertences.

Do teu olhar
fugaz
pousado em mim,
a denúncia
de que me lês.
Por isso me desvio
e apenas existes
aqui.
No instante perfeito
que me concede
o teu desenho.